JORNAL FOCO SINDICAL

EVOLUÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO NOS ÚLTIMOS 20 ANOS

Em resumo, podemos dizer que o mercado de trabalho, numa visão social e jurídica contemporânea, é o fenômeno social resultante da relação “interdependente e tripartite” que existe entre “consumidores” versus “atividade empresarial” versus a “atividade laboral”.

A palavra consumo aqui é utilizada no sentido lato, ao instante que a ordem destes fatores pode sofrer inversões, ora podemos ter consumidores ou trabalhadores executando o papel de fornecedores e vice-versa.

Quando entendemos que as necessidades humanas (consumo) interferem nas regras de negócios (empresas) que por sua vez ditam as necessidades laborais para a sobrevivência, podemos facilmente descrever a evolução do mercado do trabalho nos últimos 20 anos.

Sem dúvida a difusão da internet e das redes sociais como instrumentos de relacionamento e de trabalho são fatores preponderantes. Aplicativos como “whatsapp”, “facebook”, dentre outros, não só proporcionaram a mudança no consumo de telefonia como criaram novas formas de comportamento sociais e de trabalho. No nosso mercado da beleza, por exemplo, podemos dizer que tais aplicativos criaram relações mais diretas entre clientes e profissionais (agendamento direto), ressaltando algumas das peculiaridades como a autonomia na coordenação dos trabalhos.

Nem tudo são flores, se de um lado tivemos nessas últimas duas décadas a consolidação do tele trabalho e o surgimento de outras atividades laborais, nunca antes pensadas, como “youtubers” ou “blogueiros”, de outro lado empresas e trabalhadores convivem com uma pressão exacerbada por geração de lucros, produtividade e inovação, sem contar que relevante parte da nossa população vive um processo de falta de qualificação ou mesmo em situação de desemprego.

Fato é que, enxergando o processo de evolução como um fenômeno cíclico, estamos vivendo o ápice de uma curva de grande transformação do comportamento do mercado do trabalho, o qual vem temperado do reflexo das crises internacionais, reflexões sobre reformas trabalhistas e previdenciárias, estas últimas, que estão apenas no começo.

As relações de trabalho vêm sofrendo mudanças desde a revolução industrial, que teve por característica a concentração das pessoas vindas do campo para viver nas cidades; aliás, a partir destas revoluções ocorreram os primeiros movimentos pela luta de direitos sociais e trabalhistas que culminaram no surgimento do direito do trabalho e da justiça especializada às questões trabalhistas.

Em que pesem a existência de vários registros milenares na China, Babilônia e Egito sobre movimentos trabalhistas, a exemplo do próprio êxodo onde é eminente a defesa de Moisés pela libertação dos hebreus da “escravidão”, o “movimento sindical”, para nós ocidentais, passa a ter um papel preponderante no mesmo processo de revolução industrial, onde trabalhadores reunidos passam a cobrar seus “direitos humanos” e “trabalho digno”.

Como dignidade da pessoa humana é algo que não cai em desuso, a importância dos sindicatos na defesa e manutenção destes direitos seculares é o pilar central das relações de trabalho, porque sem pessoas as máquinas de nada prestam, uma cadeira de salão de beleza, sozinha, não atende clientes; aliás, não temos robôs que cortam cabelos ainda.

Essa importância – defesa de direitos humanos dos trabalhadores – nunca deixou de fazer parte das prerrogativas sindicais, tendo ocorrido apenas, em muitas categorias, um esvaziamento de propósitos e enfraquecimento de lideranças e capacidade de “congregação de trabalhadores” pelos mais variados motivos, fato que é chamado atualmente como “crise de representação sindical”.

Infelizmente muitos sindicatos são utilizados como “meios” para atingir outros “fins”, especialmente para “politicagem”. Por exemplo, os sindicatos que nasceram para contestar os atos do Estado em busca de renovação de propósitos sociais (a exemplo de Chico Mendes), hoje vivem dependentes de sistemas de contribuição sindical e de reconhecimento do Ministério do Trabalho e Emprego para atuar, vivendo, praticamente, como os filhos mimados que recebem mesadas e se acham os reizinhos dos seus bairros. Vemos também, vergonhosamente, muitos “sindicatos de carimbos”, com diretores que nunca trabalharam sequer na categoria que dizem representar, vivendo como chupins dos associados descontentes que só recebem taxas para pagar, mas sequer sabem para que elas existem.

As empresas são elementos essenciais da relação de trabalho; do surgimento de uma empresa, nasce o posto de trabalho. Logo, as empresas não podem ser vistas como “vilãs”, pois contribuem com inúmeros postos e oportunidades de trabalho e consequentemente com a sobrevivência das famílias, sociedade e economia como um todo.

Patrão e Empregado devem manter solidariedade na realização de seus interesses que são opostos, mas complementares e indissociáveis.
Cada qual ocupa uma posição que merece ser respeitada em considerando seus riscos, esforços e direitos e deveres. Enquanto o “patrão” assume o risco do estabelecimento, investindo na atividade empresarial (estrutura, aluguel, salários, marketing, etc.), o “funcionário” vende sua mão de obra (sua liberdade de ir e vir) para desempenhar a atividade para qual foi contratado.

A forma de tratamento como se patrões e trabalhadores são inimigos é algo que deve ser abolida; inclusive, a ideia de que um de depende do outro como “mal necessário” é outro veneno pior nas relações humanas, sobretudo as de trabalho.

É tempo de união entre empregadores e trabalhadores; chegou a hora do fim do ringue onde temos o Estado como “juiz de guerra”. Data vênia, o maior desencontro entre as classes é oriundo da alta carga tributária e não da falta de capacidade de diálogo; quando o Estado taxa demais, as empresas descontam no lado mais fraco: o trabalhador. Este por sua vez, só consegue ser ouvido quando grita, quando para rodovias, quando faz greves.

Márcio Michelasi

Márcio Michelasi – Consultor jurídico e especialista em direito sindical e negócios de beleza. Escritor, educador e psicanalista. Diretor Presidente da Pró-Beleza Academy, Sindicato Pró-Beleza e Pró-Beleza Brasil – Associação Brasileira dos Profissionais Empreendedores em Moda, Estética e Beleza. Consultor de Relações Intersindicais da ABSB – Associação Brasileira dos Salões de Beleza. Vice-Presidente da UST – União Sindical dos Trabalhadores.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *